Árabes e africanos: revoluções pelo direito de resolver os próprios e graves problemas sociais

Quando o Jornal Nacional, da Rede Globo, mostra a imagem de uma grande atriz norte-americana visitando um campo de refugiados com esqueléticas crianças etíopes na África, a bondade da celebridade do cinema parece resumir a culpa de um povo pela desgraça em que supostamente se meteu. A imagem da atriz Angelina Jolie afagando crianças parece cristalizar a opinião de que somente contradições internas que, aliás, todos os países têm, são responsáveis pela emergência de revoluções sangrentas e de repercussão duvidosas. Quando não, a interpretação explora discursos étnicos carregados de racismo ou a forma estadunidense de ver o mundo como impregnar uma visão míope sobre processos revolucionários em países pobres e aparentemente insignificantes que não conseguimos compreender e nem sabemos disso.

Foi este contexto histórico e esta imagem que a professora Analúcia Danilevicz Pereira usou para ilustrar o 6º módulo do Projeto Diálogos para Ação, na manhã desta sexta-feira, 26 de outubro, na Casa dos Bancários. O penúltimo módulo do projeto em 2012 debateu as Revoluções Africanas e Árabes. Analúcia é doutora em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e atualmente é professora na Escola Superior de Propaganda e Marketing e da UFRGS. O Diálogos para Ação encerra-se no próximo dia 23 de novembro, com a apresentação do professor Luiz Augusto Farias do módulo Revoluções Cubana e Nicaraguense.

A imagem de Angelina Jolie é uma alegoria de um problema maior sobre a importância inferior que as revoluções do século 20 recebem da mídia e das próprias escolas de História. “A tarefa aqui é reconstruir um conhecimento que praticamente foi eliminado das instâncias educativas. Estamos experimentando o duro impacto do fim das experiências revolucionárias do século 20. Essas experiências definiram a própria lógica da Guerra Fria. Foi um período em que o Terceiro Mundo passou a ter um peso importante nas decisões da política internacional”, analisou Analúcia.

Mas que revoluções são estas e de que tipos? São revoluções marcadamente iniciadas por volta dos anos 1960 e 1970, marxistas-leninistas, altamente influenciadas pela experiência russa que ocorrem num período de descolonização tardio na África. As revoluções em Angola, Moçambique, Iêmen do Sul, Etiópia e Afeganistão têm em comum terem sido ousadas e feitas por países muito pobres. À exceção da Etiópia, tiveram um componente de transformação: em geral, expulsão de uma potência dominadora ou derrubada de um regime monárquico ou altamente autoritário.

Segundo Analúcia, o contexto que precede a eclosão das revoluções árabes e africanas é dado pela primeira crise do Capitalismo na Europa, em 1870, conformada pela Conferência de Berlim, em 1885, que levou à aplicação de estratégias expansionistas europeias após o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1914. A Europa em crise precisava superar suas dificuldades financeiras. A saída foi buscar recursos naturais para tocar o seu capitalismo industrial e de fomento do consumo, reerguer-se no Entre Guerras e reagrupar forças políticas através da demonstração de força de domínio sobre nações africanas e árabes.

No contexto posterior à Segunda Guerra Mundial, a influência mais marcante é da Guerra Fria. A polarização Estados Unidos-União Soviética separa o Iêmen do Norte, capitalista, do Sul, socialista, torna o Afeganistão uma complexa armadilha para russos em disputa fria com os Estados Unidos pela exploração ou gestão do petróleo.  E mais recentemente, uma armadilha que os estadunidenses criaram para eles mesmos.

Analúcia demonstra que essas revoluções africanas e árabes podem ser classificadas de duas maneiras: Etiópia, Angola e Moçambique apresentam um forte componente interno, com um sentimento de esgotamento do sistema colonial como mecanismo de resolução de problemas. As revoluções no Iêmen e no Afeganistão ocorrem num contexto de disputa mais vivo entre colônias europeias e, depois, potências socialista e capitalista.

Num mapa, a professora demonstrou que estas revoluções andaram no sentido norte-sul, sobretudo no que diz respeito à África. Aliás, argumenta Analúcia, que a revolução Etíope ocorre mais fortemente ligada ao contexto árabe do que propriamente em relação à África. Angola e Moçambique são países cujas revoluções ocorrem num contexto de descolonização tardia. O motivo? Os portugueses: “Houve várias experiências revolucionárias na África. As colônias portuguesas foram as últimas a se descolonizarem porque a presença de Portugal era a de um colonizador muito duro e consistente”, diz.

Mas o que levou essas experiências à derrota. Analúcia escava as origens do Capitalismo. Esse regime hegemônico levou quatro séculos para ser estruturado. Desde o século 15, quando as navegações globalizaram o mundo, o acúmulo de capital e a iniciativa privada são um construto impregnado na nossa cultura. Portanto, o raciocínio é pensar essas revoluções não como fracassos, mas como avisos de que, mesmo a fortaleza que é o regime Capitalista, pode ser colocada em cheque por um período de quase quatro décadas, a partir da década de 1960, por nações muito pobres. Revoluções estas, defende Analúcia, que ainda não acabaram. Nem mesmo com o fim da experiência russa e a queda do Muro de Berlim, em 1989.

“O Capitalismo precisou de muitos anos para se consolidar como sistema. No século 20, enfrentou o maior desafio de todos que foram as experiências não capitalistas. Por que criticamos a falta de estudos e as interpretações destas revoluções? Porque procuramos uma compreensão para as revoluções do século 20 numa perspectiva de fazer a seguinte pergunta: Como países tão fracos, frágeis, decidem levantar uma bandeira e dizer: Nós vamos fazer isto por nós mesmos”, explica Analúcia.



Breviário das revoluções árabes e africanas
 

Para que possamos entender a característica de cada revolução apresentada no 6º módulo do Diálogos para Ação, sob o título As Revoluções Africanas Árabes, apresentamos um breve resumo das revoluções de cada um dos países abordados pela professora Analúcia Danilevicz Pereira.

Etiópia: País que, junto com a Libéria, foi o único africano que não foi colonizado ou por portugueses, franceses, ingleses ou alemães. Até a década de 1960, era um país monárquico feudal. Grandes proprietários de terra exploravam trabalhadores rurais, que viviam na condição de servos. Revolução derruba monarquia, implementa mudanças estruturais na sociedade, mas sucumbe com o fim da União Soviética.


Afeganistão:
Geograficamente localizado no Centro de um conflito de interesse de potências como a China, a União Soviética, o mundo árabe, Israel e Irã, o Afeganistão foi invadido pela União Soviética em 1979. Também fica perto de aliados norte-americanos, como o Paquistão, que tem a bomba atômica. É considerada uma revolução porque a monarquia foi derrubada.

Iêmen do Sul: A revolução do Iêmen não tem sua importância reconhecida e é pouco estudada no Brasil. Localizado na porta de entrada do Mar Vermelho, que liga Ásia, África, e Europa pelo Canal de Suez, via Mar Mediterrâneo, e Oceano Índico, a revolução do Iêmen, na década de 1960, expulsou os ingleses do país.

Angola: Um pouco diferente das revoluções do Iêmen e do Afeganistão, a Revolução em Angola, em 1975, ocorreu mais em virtude da construção de condições de crítica ao colonialismo português e de forças socialistas.

Moçambique: Também iniciada nos anos 1970, tem um contexto semelhante ao da revolução em Angola. Forças internas socialistas buscam uma alternativa de regime que substitua o domínio português.

 

Fonte: SindBancários

 

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