Empresas tinham núcleo para monitorar trabalhadores na ditadura, diz CNV

Documentos obtidos pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) comprovam a participação direta de empresas na sustentação da ditadura civil-militar (1964-1985) no Brasil. Mais do que isso: revelam a existência de um núcleo cujo propósito era monitorar e enfraquecer o movimento sindical.

As informações foram apresentadas pela representante da CNV e coordenadora do GT13 "Repressão aos Trabalhadores e ao Movimento Sindical", Rosa Cardoso, em coletiva na manhã desta segunda-feira (8).

Já estão em posse da CNV três atas de reuniões do Centro Comunitário do Vale do Paraíba (Cecose), órgão composto por elementos de segurança de grandes empresas da região. Estes documentos mostram que a colaboração das empresas ao regime não se restringia a ajuda financeira.

Uma delas, datada em 18 de julho de 1983 e descrita como \’confidencial\’, continha informações detalhadas apresentadas pelos \’chefes de segurança das empresas\’ sobre demissões, nome de dirigentes que estavam à frente das mobilizações e reuniões organizadas pelas lideranças locais. Posteriormente, eram repassadas ao Serviço Especial de Inteligência (SIS).

De acordo com Sebastião Neto, integrante do Grupo dos Trabalhadores, a Volkswagem seria uma espécie de órgão de inteligência e articuladora do movimento que contava com empresas privadas (General Motors, Ford, Kodak, Philips, Ericson, Confab) e estatais (Petrobrás e Telesp).

Durante a coletiva também foi apresentado um outro documento de 1981 que traz uma lista com mais de 400 nomes de trabalhadores suspeitos de colaborar em ações contra o regime. Construída por dezenas de empresas (Brastemp, Toshiba, Toyota, Chrysler, Ford, Mercedes Benz, Scania, Rolls-Royce, Volkswagem), a lista ficava sob custódia do setor de Análise, Operações e Informações do Dops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social). Entre os dirigentes fichados estão os ex-presidentes da CUT, Jair Meneguelli e Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho.

Para Rosa Cardoso, a ditadura brasileira foi marcada por prisões seletivas com base em informações repassadas pelas empresas. Cerca de 40% dos mortos e desaparecidos eram trabalhadores.

Segundo ela, existem vários tipos de responsabilizações levando em conta à legislação internacional. Em relação às empresas, podem ser julgadas por crimes de lesa-humanidade. "Esses crimes não são caracterizados apenas por mortes ou desaparecimentos. Prisões arbitrárias e torturas também são consideradas de acordo com a legislação internacional."

Repressão no Cone Sul

Há uma semelhança entre todas as ditaduras do Cone Sul: o caráter antissindical. Esta é a análise da pesquisadora argentina, Victoria Basualdo. Ela participou neste final de semana de uma atividade com os integrantes do Grupo dos Trabalhadores com a finalidade de debater a responsabilização de empresas e empresários por graves violações aos direitos humanos e crimes de lesa-humanidade.

Victoria, que tem auxiliado os trabalhos da Comissão da Verdade, disse que na Argentina já foram registrados quatro casos de responsabilização criminal. As ações foram imputadas aos diretores das companhias Ledesma (fabricante de açúcar), Aguilar (mineradora), La Veloz Del Norte (transportadora) e Ford.

Ela também defendeu uma proposta já apresentada pela CUT à Comissão Nacional da Verdade, de que as indenizações sejam repassadas a um Fundo e, posteriormente, utilizadas para financiar projetos relacionados à recuperação do movimento sindical.

A Comissão Nacional da Verdade foi criada pela Lei 12.528/11 e instituída em maio de 2012. O relatório final deverá ser apresentado em dezembro.

Fonte: CUT
 

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