Dilma e Erdogan: quais semelhanças?

Estou convencido de que o esforço para comparar a derrota do golpe militar na Turquia com a permanência do governo interino de Michel Temer no Brasil é um desses exercícios mentais que tanto podem esclarecer como confundir.

Para começar, não se pode esquecer o ponto essencial, que é o apoio popular dos governantes atingidos.
A reação popular ao apelo de Erdogan não surpreende. Mais surpreendente, na verdade, foi a tentativa de afastar do cargo, através de tanques e baionetas, um chefe de governo que se tornou o mais importante político da Turquia desde a década passada, um dos mais populares da história do país.

Ex-jogador de futebol, Erdogan se auto-define como conservador. Foi prefeito de Istambul, fundou o partido que hoje exerce o governo e venceu três eleições consecutivas como primeiro ministro, em 2002, 2007 e 2011. Em 2014, na primeira eleição direta para presidente na história da Turquia, foi vitorioso por 52% dos votos.

Em política externa, que tem uma ressonância muito maior no cotidiano do país do que no Brasil, Erdoban é um crítico duro do Estado de Israel, que já classificou como "principal ameaça a paz" no Oriente Médio. Também já disse que o cerco militar a Gaza criou uma "prisão a céu aberto" e definiu a política externa do primeiro ministro Benjamin Nethanyau como como "terrorismo de Estado."

Num país onde a separação entre religião e Estado tornou-se realidade na década de 20 do século passado, Erdogan cultiva apoio popular junto ao clero muçulmano tradicional, restaurando velhas prerrogativas abolidas anteriormente. No enfrentamento contra o golpe, foi recompensado: os líderes religiosos foram às ruas em sua defesa.

Erdogan tem uma postura adversária dos direitos reivindicados pelo movimento feminista. Nem pode ouvir falar de LGTB.
Em seu primeiro mandato como primeiro ministro tomou medidas favoráveis aos trabalhadores, como a jornada semanal de trabalho de 45 horas.

Nos últimos anos, contudo, empenhou-se em políticas favoráveis a iniciativa privada. Fez do ingresso na União Europeia uma prioridades de seu governo — mas teve poucas chances de ser atendido, apesar de inúmeras concessões, num continente onde o racismo cresce cada vez mais.

O poder de Erdogan junto aos meios de comunicação é inegável. Ainda que oposição e governo tenham divergências permanentes sobre o alcance e sobre o caráter das medidas tomadas contra jornais e jornalistas, não há dúvida que em uma década e meia o governo tomou medidas que afetaram o controle das empresas de comunicação e modificaram a tonalidade política do noticiário.

Conforme um levantamento feito pelo Time londrino, cobrindo dois dias da campanha presidencial de 2014, a emissora estatal dedicou 204 minutos ao candidato Erdogan, contra 3 para os adversários. Na cobertura dos protestos de 2013, tão grandes na Turquia como no Brasil, a CNN local chegou a exibir documentário sobre pinguins em vez de mostrar a luta na rua — atitude que lembra a TV Globo durante a campanha diretas-já, que se manteve escondida enquanto pode.
Em 2016, numa situação política muito diferente, Erdogan e Dilma enfrentaram o ataque à democracia de forma desigual, também.

O presidente da Turquia reagiu na hora, quando o golpe se encontrava em seus primeiros movimentos. Não foi um gesto heroico nem repentino, mas uma resposta de acordo com um chefe de governo que possuía grande popularidade e um aparato de comunicação a seu favor.

Contava ainda com o apoio de uma fatia do aparelho de segurança, encarregado da espionagem interna e do combate ao terrorismo — uma força importante nessas horas, quando a cúpula do Exército mudara de lado.

Como os brasileiros se recordam, a resistência real de Dilma ao golpe teve início após o afastamento, quando ela se encontrava exilada no Alvorada. Antes disso, a presidente cumpriu escrupulosamente o ritual jurídico do impeachment. Evitou fazer aparições em cadeia de TV, a que tinha direito como presidente da República, pelo risco de enfrentar paneladas.

Sua defesa evitava politizar a discussão e não empregava o termo necessário, "golpe". Por um longo período, o debate ficou concentrado em argumentos técnicos, claríssimos para os interessados , mas incompreensíveis para a maioria da população.

Era, a rigor, uma atitude em linha com o segundo mandato, período no qual a presidente se manteve distante da grande maioria dos brasileiros após um ajuste econômico que questionava conquistas e direitos acumulados desde 2003, levando ao afastamento de quem lhe deu apoio decisivo em outubro de 2014.

Afastada de modo escandaloso, sem um fiapo de prova de crime de responsabilidade — como acaba de ser reconhecido pelo Ministério Público Federal — Dilma enfrenta a luta pela democracia em outro terreno. Sem empregar tanques, caças nem baionetas, o caráter absolutamente regressivo dos golpistas unidos em torno de Michel Temer, constitui o principal argumento para sua volta.

Fonte: Site 247
 

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