Juremir Machado: “Mídia e educação precisam ser transformadoras”

“Vocês são resistentes! Resistência é fundamental porque vivemos numa das épocas mais nebulosas da história recente. Uma época conturbada, estranha e até perigosa, em que todo dia algo nos mostra que não estamos num caminho seguro.” Essa foi a saudação do jornalista, professor e escritor Juremir Machado na quarta edição do evento “Mídia e Poder no Brasil”, realizada na noite fria de 21 de agosto, em Caxias do Sul. O encontro foi promovido pelo Coletivo de Comunicação Alternativa, grupo de profissionais empenhado em promover outros olhares sobre temáticas sociais.

Juremir analisou o cenário atual a partir da própria experiência: “Quando tudo começa a se inverter, é sinal de que algo grave está acontecendo.” Ele relatou surpresa ao entrevistar a senadora Kátia Abreu e ver aquela que já foi chamada de rainha da motosserra defender agora a preservação da Amazônia. Não por ecologismo, mas por entender que, do ponto de vista do agronegócio, da venda de produtos para a Europa, essa é uma estratégia fundamental. “Como chegamos a isso?”, “Como chegamos a isso?”, perguntou para o auditório lotado.

Segundo a jornalista Karine Endres, que integrou a mesa representando o Coletivo de Comunicação Alternativa, a mídia sempre teve relações intrínsecas com o poder no Brasil. “Em tempos de realidade distópica e fake news, é cada vez mais importante discutir como a informação se propaga e como impacta a democracia. Possibilitar essa reflexão é o objetivo do nosso Coletivo”, explicou.

Representando os apoiadores, Nelso Bebber, coordenador da secretariado Sindicato dos Bancários de Caxias do Sul e Região, destacou a preocupação com a verdade dos fatos e a importância de fortalecer debates neste sentido. Nelso lembrou que o sindicato tem a preocupação em fortalecer eventos que fortaleçam a informação e a reflexão, pois sabem que é um dos caminhos para o conhecimento e a resisntência dos trabalhadores.

Nelso Bebber, diretor de

Relação com o poder

Para que serve a mídia? Essa reflexão acompanha Juremir há mais de 30 anos. Conforme a mitologia da profissão, a resposta é formar, informar e entreter, cada um desses itens em maior ou menor grau dependendo do momento. “O jornalista gosta de se enxergar como alguém que existe para informar”, diz Juremir.  Mas essa representação corresponde ao que de fato a mídia faz? Afinal, a mídia é um poder, é o poder, é instrumento de poder, ou pode ser instrumento de transformação? O francês Pierre Bourdieu, um grande sociólogo, extremamente pragmático, definia campo como o espaço social estruturado com dominantes e dominados. Mostrou que os campos são de conflito e enfrentamento, mas têm mobilidade. O dominante pode vir a ser dominado e vice-versa. Porém, afirmou que é próprio das estruturas que tenham a tendência de se conservar. “Não são por natureza transformadoras, são conservadoras”, destacou Juremir. Bourdieu nasceu em uma família humilde do interior e veio a integrar um dos mais altos degraus da vida intelectual parisiense, graças à educação. Mas dizia que, normalmente, quem está num determinado patamar, tende a fazer com que seus filhos ocupem o mesmo espaço. Ou seja, o dinheiro corre para o dinheiro, a fama corre para a fama. As estruturas se reproduzem e para isso contam com a mídia e a educação. Juremir elenca a família, a escola e a mídia como disseminadoras de ideologia, seja enquanto sistema de ideias ou condicionamento do olhar.

O que se espera da educação? “

Que ela seja emancipadora”, afirma Juremir. “Esse é um conceito iluminista. Como dizia Kant: ‘Ousa saber’. Mas quando olhamos a educação, na prática, ela é transformadora ou conservadora? Existe para que mudemos a estrutura ou para nos convencer de que a estrutura deve continuar a mesma?”, questionou.

Sobre a perseguição ao conhecimento, Juremir não tem dúvidas. “Há uma hipótese de que a escola esteja doutrinando. Qualquer hipótese pode ser considerada, mas são as evidências que mostram se é uma verdade. Podemos dizer até que a Terra é plana, mas não há evidências suficientes para reabrir esse processo historicamente já resolvido. Assim como não há evidências suficientes de que a escola doutrina. Observo a sala dos professores onde trabalho. Cada um pensa de um jeito, é difícil encontrar um denominador comum. A universidade é um lugar de diversidade e pluralismo”, defendeu o escritor.

E o que se espera da mídia?

Juremir Machado explica que jornalismo deve ser ponto e contraponto. “Para nós, na Rádio Guaíba, é inimaginável ouvir um lado e não ouvir o outro”. Ele citou o filósofo liberal inglês John Stuart Mill, que afirmou que o convencimento se dá, no destinatário, pelo cruzamento de argumentos. “Ao colocar Kim Cataguiri e Marcia Tiburi para debater, não imaginamos que um vai convencer o outro. O ouvinte ou leitor inteligente é que vai se posicionar a partir dos argumentos dos dois lados. Queremos promover um espaço de entrechoque. O debate é o que interessa”, destacou.

O Jornalismo é um ato de independência, cuja principal tarefa é desagradar e não servir, explicou Juremir. “Os alunos me perguntam: ‘É possível ser isento no jornalismo?’ Esse é um verdadeiro fetiche da profissão. Eu faço jornalismo opinativo. Quem opina nunca é imparcial. Opinar é tomar parte. Mas não é obrigatório tomar parte sempre de um mesmo lado”, completou Juremir.

Para o grande jornalista norte-americano e ícone mundial  Gay Talese, a palavra que define o jornalismo é credibilidade. Normalmente se escolhe isenção, imparcialidade, coragem ou precisão, diz Juremir, mas para ele a palavra do jornalismo é  independência e isso gera a credibilidade. “Não confiamos na mídia brasileira porque sentimos que ela não é independente. Percebemos no dia-a-dia que é uma mídia atrelada a um lado. Realça algumas coisas e não trata de outras. Perde a confiança. Por que o Jornal Nacional não coloca um reloginho mostrando há quantos dias estamos sem saber onde está o Queiroz? Por que a mídia não cobra isso como cobra em outros casos? Por que a mídia brasileira aceita todas as incoerências desse governo? O nepotismo escancarado da indicação do filho para a embaixada, essa situação nebulosa envolvendo o Queiroz e o Flávio Bolsonaro, o fato de que o Flávio Bolsonaro seja o principal avalista do novo Procurador Geral da República, o episódio envolvendo a família da primeira-dama, a Vaza-Jato totalmente escandalosa.  Por que nada disso é interessante para a mídia agora?”, denuncia.

A mídia é um poder e poderia ser transformadora, acredita Juremir. Citou como exemplo a divulgação dos dados da escola de economia de Paris mostrando que o Brasil continua sendo o país mais desigual do mundo entre as democracias, concentrando riqueza no 1% mais ricos. “A desigualdade é tematizada na mídia, mas não os mecanismos para mudar. Por que não se comportar como um poder transformador? A mídia e a educação precisam ser os grandes instrumentos de transformação no Brasil, pois a sociedade brasileira precisa de mudança”, conclui Juremir.

Colunista do Correio do Povo e apresentador do programa Esfera Pública, na Rádio Guaíba, Juremir é Doutor em Sociologia pela Universidade de Sorbonne/Paris e professor da PUCRS. Recebeu em julho passado a Medalha do Mérito Farroupilha, conferida pela Assembleia Legislativa do Estado. Tem mais de 20 livros individuais publicados, entre os quais Getúlio,1930Águas da RevoluçãoVozes da Legalidade  e Corruptos de Estimação. Em 2019, lançou Ser Feliz é Tudo que se quer e venceu o Prêmio Açorianos de Literatura com o livro Raízes do Conservadorismo Brasileiro. O evento Mídia e Poder no Brasil, promovido pelo Coletivo de Comunicação Alternativa, teve o patrocínio do Sindicato dos Bancários de Caxias do Sul e Região e o apoio do Sindicomerciários, Sinpro/Caxias, Taufe & Tapia Advocacia Trabalhista e Sintep/Serra.

Fotos: Gilmar Gomes

 

 

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