Abertura com a presença de Lula, Haddad, Boulos e Flavio Dino mostra a importância da Campanha Nacional dos Bancários

Necessidade da união em defesa dos direitos dos trabalhadores, dos empregos e da democracia foi unanimidade durante a abertura da 22ª Conferência Nacional dos Bancários 

“Espero que a gente possa, todos nós, contribuir um pouco para que a Contraf-CUT possa fazer um grande acordo no ano de 2020, com todos os problemas”, foi assim que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, desejou boa sorte aos bancários na Campanha Nacional 2020, na noite desta sexta-feira (17), durante a abertura solene da 22ª Conferência Nacional dos Bancários. “Companheiros bancários, eu acho que outra vez vocês têm um papel importante na história. Eu não conheço nada de importante que aconteceu de muitos anos para cá que não tenha alguma categoria de trabalhadores envolvida. Eu acho que outra vez vocês vão ter que misturar a luta política com a luta reivindicativa. Porque não é possível a gente consertar o Brasil, se a gente não consertar a política”, afirmou o ex-presidente.

Para Lula, a política deve ter prioridade de atuação em alguns momentos da história. “Eu já fui presidente e não tenho interesse de ficar pedindo Impeachment do Bolsonaro. Mas esse homem está praticando um verdadeiro genocídio neste país. Ele trata a morte das pessoas com muito descaso, ele trata os problemas sociais com muito descaso. Eu acho que além de vocês que têm demonstrado muita disposição de briga, a gente tem que mexer com a classe trabalhadora, com os milhões de desempregados, com os milhões que estão na economia informal. As pessoas estão passando fome dentro de casa. E o que a gente está fazendo? Política de solidariedade é ótima, mas é preciso mais. É preciso que a gente faça um pouco mais para que os movimentos sociais e políticos não tenham a preocupação de falar e de gritar um ‘Fora Bolsonaro’. Ele é a grande crise. Esse cidadão não respeita nenhum sentimento e nenhuma verdade. Ele tem vergonha de lidar com a verdade.”

Lula lamentou o fato de a população estar perdendo o direito de se indignar. “É importante que os bancários saibam que a gente não está fazendo críticas ao Bolsonaro porque ele é presidente deste país. A gente está fazendo crítica ao Bolsonaro porque ele não tem competência para governar esse país, ele não tem competência de criar solução para os problemas. A gente precisa mostrar indignação para o bem do Brasil. Eu acho que nós precisamos recuperar o direito a indignação.”

Ao encerrar, o ex-presidente deixou um recado para a categoria bancária. “Enquanto eu puder, estarei junto com vocês nessa briga. Porque não é possível que depois do sonho que nós tivemos, de construir um Brasil onde os pobres fossem tratados com respeito, a gente chegue à situação de hoje. Hoje a fome voltou, tem muita gente dormindo na rua, tem muita criança pedindo esmola e tem muita gente sem esperança. Nós temos que vender esperança para esse povo e a esperança para o povo é mudar o governo, porque com esse não tem solução”, finalizou o ex-presidente Lula.

Entulho da ditadura

O governador do Maranhão, Flávio Dino, lembrou que começou sua vida profissional como advogado no Sindicato dos Bancários do Maranhão. “Vivi esse processo da fusão de bancos, do desemprego, da automação bancária como elemento de substituição de trabalhadores e trabalhadoras”.

Dino recordou ainda que, em seus tempos de juventude, a expressão “entulho autoritário” era um termo utilizado para o que restou da ditadura militar no aparelho institucional brasileiro. “Em um próximo governo progressista, temos de remover o entulho autoritário. E um dos elementos desse entulho é a legislação antissindical. Isso não diz respeito aos sindicalistas apenas, mas a todos que acreditam na democracia e na eliminação das desigualdades sociais”, afirmou.

Flávio Dino também alertou para as ameaças às políticas públicas que ainda restam no Brasil, como o Bolsa Família. Ele defendeu a importância dessas políticas para evitar um desastre ainda maior no Brasil. “Sem política social, sem o Bolsa Família, sem o auxílio emergencial, estaríamos vivendo saques, caos e desespero, como antes já vivemos no Brasil. Eu me lembro como era o período de seca no Nordeste”, afirmou o governador do Maranhão.

Ao final, o governador do Maranhão disse que é importante ter ação nesse momento difícil. “Precisamos ter energia. O Bolsonaro não deve nos assustar. Ele e o bolsonarismo vão perder, tenho certeza”, finalizou.

Guerra alheia

O professor e ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, também destacou que vivemos um momento delicado no Brasil. “Nessa semana me chamou a atenção o plano nacional de defesa, que é um novo problema que está ressurgindo no país devido ao isolamento que o Brasil enfrenta no cenário internacional”, observou.

Ele destacou a declaração do Comando Sul das Forças Armadas Americanas, que disse que o governo brasileiro pagava militares brasileiros para servir ao governo americano, enquanto apresentava esse militar ao presidente (Donald) Trump.

Um segundo ponto levantado por Haddad é a demanda do Ministério da Defesa para aumentar de 1,3% do PIB para 2% do PIB o orçamento das Forças Armadas. “Quando falamos em um aumento de 0,7% do PIB, são números muito abstratos. Mas, para ficar mais claro, estamos falando em mais de R$ 7 trilhões. É um orçamento adicional de R$ 50 bilhões por ano. Em 10 anos isso dá 500 bilhões. Vocês lembram que o Guedes vendeu a reforma da Previdência falando que o Estado iria economizar R$ 1 trilhão. Agora ele quer gastar com um orçamento adicional do Ministério da Defesa metade do que ele diz que iria economizar. Pra que?”, questionou.

Para Haddad, o Plano Nacional de Defesa, que vazou para imprensa, dá pista do que vai acontecer. “O governo brasileiro está dizendo que nossa região não é mais pacífica. Imersa em crise e tensões. Qual é a crise e tensão militar na nossa região que envolve o Brasil pós-guerra do Paraguai? Assim como pagamos um militar para servir aos Estados Unidos meu temor é que estamos aumentando o orçamento do Ministério da Defesa para comprar uma guerra que não é nossa”, afirmou.

O ex-prefeito disse que chegou o momento que temos que ir pra rua para defender os bancos públicos. “Sem os bancos públicos o Brasil não tem como se desenvolver”, disse. “Assim como temos que defender o auxílio emergencial, que Bolsonaro quer acabar e é o que minimamente está sustentando a economia, que está em frangalhos”, completou. “Precisamos aproveitar que a sociedade não está parada”, disse ao citar os movimentos da educação, que evitou o corte no orçamento, e o das torcidas organizadas, que juntou palmeirenses com corintianos, vascaínos com flamenguistas juntos na defesa da democracia e contra o fascismo.

“Isso é um sinal de que a reação ao Bolsonaro tem aumentado. Temos que confiar na sociedade, que demonstrou capacidade de reação e também na nossa capacidade de mobilização. Os elementos estão dados e temos que estar mais juntos do que nunca”, concluiu.

Perda de empregos

Guilherme Boulos, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e candidato à Prefeitura de São Paulo, abordou a gravidade do momento que vivemos. “Nós estamos na maior crise, sem sombras de dúvidas, da nossa geração. É, em primeiro lugar, uma crise sanitária, uma crise de saúde pública e não algo natural. O vírus se desenvolveu por circunstâncias imponderáveis, mas muitas mortes poderiam ser evitadas se houvesse uma disposição de governos do mundo todo, sobretudo no Brasil, para proteger a vida das pessoas. Não é por acaso que os três países com mais mortes no mundo por Covid-19 são governados pela extrema direita. Brasil, Estados Unidos e Reino Unido. Os três adotara, uma postura negacionista, é a gripezinha, é o ‘E daí’, vai passar.”

Para Boulous, neste caso, o que estamos vendo, é um verdadeiro genocídio. “Aqui no Brasil, sobretudo, praticado pelo governo Bolsonaro. A pandemia tem deixado um rastro de morte e destruição. Mas aqui, além da pandemia, nós temos que enfrentar um pandemônio. Ou seja, o Bolsonaro – não contente em ter uma política destrutiva, 63 dias sem ministro da Saúde – não tem estratégia de saúde, não tem testagem em massa, não tem monitoramento epidemiológico. Mas, não contente do desastre humano, ele quer se aproveitar para promover o autoritarismo político.”

O pré-candidato à Prefeitura de São Paulo afirmou que nós vivemos ainda uma crise econômica mundial. “O que vai ficar depois da pandemia é um cenário de perda profunda de empregos. Estamos falando em dobrar o número de desemprego do país, estamos falando de uma precarização da vida, de miséria, que pode levar o Brasil a uma confusão social. Era falácia aquilo de estar preocupado com o emprego. Ele não salvou nem vidas nem a economia. Qual grande medida teve para obter a renda do trabalhador que foi conquistado pela oposição? Qual medida teve para colocar dinheiro em economia?”

De acordo com ele todas essas crises que estamos vivendo, de saúde, de política, social e econômica, elas se resumem numa crise de destino, numa crise de modelo e de valores. “A Pandemia vai deixar um rastro insuperável de mortes, de perdas, de luto, de famílias destruídas e desestruturadas. Agora o combate a pandemia deixou a nu os valores do modelo que nos trouxe até aqui. O cenário da pandemia mostrou a completa falência do mercado como agente regulador das relações sociais. Isso ficou evidente. A pandemia mostrou a importância do SUS, o que seria do nosso país sem o SUS?”

Para Boulous, nós precisamos tirar lições e aprendizados deste processo. “A pandemia mostrou muito bem o papel da Caixa Econômica Federal neste processo. O que seria do Brasil sem a Caixa Econômica e sem a Dataprev? Nós teríamos milhares de pessoas morrendo de fome no nosso país.”

Antes de encerrar, ele apontou três desafios que o campo progressista, democrático e popular tem nesse momento: “O nosso empenho em salvar vidas e defender medidas que salvem vidas. O segundo desafio é que não há salvação para o povo brasileiro com esse desgoverno, o Bolsonaro é incorrigível, o Bolsonaro é um criminoso, atenta contra a democracia brasileira. E por fim, o último desafio é o desafio de a gene pensar e colocar na mesa o debate de outro modelo de Brasil.”

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