Entre a fabricação da crise e os trabalhadores: o tomate, o feijão e os planos de saúde

Para o diretor técnico do DIEESE Nacional, Clemente Ganz Lucio, o Brasil da Era Lula venceu dois quilômetros de uma maratona de 42. É pouco. Mas não porque pouco foi feito. É que o estrago que o neoliberalismo deixou como legado social ainda fazem necessários muitos quilômetros até a reta de chegada para se recuperada. Além do mais, a época “estranha” em que vivemos exige um combate permanente mais contra um discurso de crise do que propriamente contra uma crise real no Brasil. O melhor disso tudo é que isso não diminui a obra de um governo que a direita e o neoliberalismo pensavam que não teria fôlego para os primeiros cem metros.

Teve fôlego sim e vai adiante, segundo Ganz Lucio. O problema é que a conjuntura de crise mundial impõe um desafio muito grande. Chegou o momento que o maratonista terá que começar a subir uma ladeira, comparável àquela que os corredores da São Silvestre têm que encarar cada vez que chegam ao sopé da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, famosa avenida íngreme de São Paulo. Clemente diz que o país terá fôlego. O pior já poderia teria passado, mas antes de começar a imprimir velocidade de subida terá que enfrentar um debate decisivo a partir desta semana.

A chave do embate entre rentistas e uma visão que entende que os investimentos no mercado financeiro deixem de ser aplicados na produção de bens industriais tem nos preços do tomate, dos planos de saúde e do feijão símbolos de um discurso de crise, mas que resiste em reconhecer derrota. “Nesta semana o DIEESE vai divulgar a inflação de março. Se esses produtos não tivessem subido tanto a inflação seria um terço do número sob o qual se apresentará. Para os rentistas o melhor é que a taxa de juros fique alta, mas nós, que lutamos por melhores condições de trabalho, não podemos exaltar a volta da inflação. O preço do tomate vai cair em um mês, mas a nossa disputa esta semana é vencer um debate que mantenha a atual política de investimento na produção e na proteção social, com juros baixos”, diz Ganz Lucio.

A tese dele, em resumo, é que o Brasil teve muita sorte. Mas não porque o presidente Lula teve sorte. Sorte porque a conjuntura mundial econômica está muito estranha e porque o Brasil deu uma guinada de visão de mundo na direção de uma política de valorização do trabalho e da promoção do consumo interno. “O Japão, A China e os Estados Unidos não fizeram o que o governo brasileiro fez em 2008. Estão sofrendo com aquela que só não será a pior crise da história – maior até do que a de 1929 – porque nada indica que teremos uma Terceira Guerra Mundial”, analisou ele na manhã deste sábado, 6 de abril, no painel “Conjuntura Econômica e os Bancos”, no 11º Congresso Estadual da Fetrafi-RS, que vai até este domingo, 7 de abril, em Imbé.

O debate da semana

Clemente Ganz Lucio chamou a atenção para um enfrentamento decisivo dos dirigentes sindicais quanto a um discurso que será mobilizado por uma classe que costuma se beneficiar de economias em frangalhos. A partir da próxima segunda-feira, 8, a visão de rentistas e a de quem entende que os investimentos no mercado financeiro deixem de ser especulativos e passem a ser aplicados na produção de bens industriais terá a inflação como arena. Os preços do tomate, dos planos de saúde e do feijão seriam espécies de astros do ringue.

A suposta fabricação de um aumento da inflação pode ser anunciada e reverberada como uma catástrofe e como o fracasso da política que há dez anos foi implantada e que preservou o Brasil de estragos da crise mundial. O tomate, o feijão e os planos de saúde – quer dizer, a alta desses produtos da cesta básica – seriam os bodes expiatórios de uma estratégia de necessidade de conter o consumo com aumento das taxas de juros. Isso deve ser lido como condições mais adequadas para os rentistas ganharem dinheiro sob riscos reduzidos. Isso não configuraria um real aumento de inflação e não justificaria medidas de combate que trariam consigo recessão e prejuízos à classe trabalhadora, na visão do diretor do DIEESE.

Para os bancários e bancárias, o discurso que se divisa no horizonte a ser combatido é o de necessidade de tornar toda e qualquer inciativa dos bancos dentro de um contexto de eficiência. Essa palavra passou à terminologia da gestão austera que avisa que as campanhas dos trabalhadores e as lutas por direito terão que entender que há uma crise gerada pela queda da margem de lucro nos sistemas financeiro por conta da queda da taxa de juros. Este é o discurso a ser batido com unidade, segundo Ganz Lucio.

As três tarefas do movimento sindical

Em sua exposição, Clemente Ganz Lucio abordou a atual conjuntura econômica brasileira. Falou das disputas entre o Estado e o mercado financeiro e do papel que o movimento sindical pode cumprir. “As lutas de cada categoria são fundamentais, mas, para promover transformações robustas, é preciso mudar as regras do jogo. E é preciso unidade entre as categorias para enfrentar as regras do jogo”, discursou.

Para Ganz Lucio, as três principais tarefas que se colocam para os movimentos sociais agora são lutar pela manutenção da queda da taxa básica de juros da economia; pelo controle do investimento social e pela regulamentação dos diversos setores da economia que são explorados pela inciativa privada e pela apropriação dos ganhos pelo Estado e pelos salários. “As transformações promovidas até agora foram as mais fáceis. Agora começa a parte difícil", avisa ele
Os debates de conteúdo do 11º Congresso da Fetrafi-RS começaram na manhã deste sábado, 6 de abril.

O painel "Conjuntura Econômica e os Bancos" contou com a participação de Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do DIEESE; Alex Leonardi, técnico do Dieese sub-seção Fetrafi-RS; e Ricardo Franzoi, supervisor do escritório regional do Dieese no RS. O debate foi mediado pela diretora da Fetrafi-RS Denise Falkenberg Corrêa.
 

Leonardi apresentou uma análise comparativa entre os balanços dos seis maiores bancos (Bradesco, Banco Brasil, Caixa, Santander, HSBC e Itaú) e mais Banrisul. O lucro líquido cde 2011 para 2012 cresceu 0,2%, de R$ 51 para R$ 52 bilhões, mas não foi pequeno. Poderia ter sido recorde não fosse o aumento da provisão por causa de um suposto aumento da inadimplência que, na verdade não cresceu.

fonte: SindBancários e Fetrafi-RS
 

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