Doente é o banco, não é você

Evento chama a atenção para a saúde mental dos bancários

A participação superou as expectativas no evento Quando a meta é sobreviver – Encontro sobre saúde mental e qualidade de vida, realizado pelo Sindicato dos Bancários de Caxias do Sul e Região na noite de 31 de maio, no auditório da entidade.

Cerca de 80 pessoas participaram da confraternização inicial e assistiram o documentário “Além do Limite: Quando a meta é sobreviver”, do jornalista Marcelo Monteiro. Após a exibição, os convidados foram chamados à mesa pela coordenadora do evento, Daniela Amoretti Finkler, da Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer do sindicato e o debate teve início.

“Recebi muitos relatos e convivi com casos semelhantes aos que aparecem no documentário na minha experiência como dirigente sindical”, afirmou Pedro Incerti, da secretaria de Saúde, Aposentados e Políticas Sociais do sindicato, abrindo as falas da mesa. “Ao mesmo tempo que os bancos fecham agências e demitem, recai sobre os que ficam toda a cobrança. Não é só a questão financeira, outros fatores podem levar à desistência do trabalho”, destacou.

Raquel Gil de Oliveira, coordenadora da Secretaria da Saúde da FETRAFI/RS – Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Instituições Financeiras do Rio Grande do Sul entende que é importante ter um olhar carinhoso para os colegas que adoecem no ambiente de trabalho. “Precisamos de um retorno à nossa humanidade, sair da rigidez que o trabalho nos impõe”, sugeriu.

A psicóloga que acompanha o grupo de apoio aos bancários afastados do Sindicato dos Bancários de Caxias do Sul (USBA), Stelamaris Zanatta compartilhou a emoção que sentiu ao assistir o documentário: “Escuto relatos de situações assim há 16 anos, é muito doído ouvir as pessoas adoecidas pelo trabalho”. A psicóloga finalizou com uma frase do poeta persa Rumi: “Onde quer que você esteja, seja a alma do lugar” e questionou: “Como ser a alma num ambiente de valores sem alma?”

 

Jacéia Netz, coordenadora do departamento de Saúde do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre, admirou a participação significativa no evento e propôs que se abrisse a palavra aos participantes, que brincaram: “Dá para chorar?” Mas os relatos feitos, assim como o documentário, mostram que o assunto merece lamento de fato.

Realista

Os participantes destacaram a importância da realização do evento, abordaram a seriedade dos problemas de ansiedade e depressão e a necessidade de que os bancários adoecidos saibam que não estão sozinhos e podem contar com apoio de colegas, do sindicato, de profissionais de saúde.

Consideraram o documentário forte, mas realista. “Destaco a violência da organização/bancos e o despreparo para lidar com saúde psíquica e emocional”, denunciou uma das participantes. “A pressão e a cobrança acontecem em cadeia, de cima para baixo, os gestores deveriam assistir esse documentário” disse outro colega.

Busca de soluções

Uma grande preocupação dos participantes é sobre as soluções para o problema, conforme as falas:

É necessário chamar os bancos para esse debate.

Quem está fazendo cobrança aos bancos sobre esse assunto?

Não é possível trabalhar em um ambiente nocivo, os bancos deveriam possibilitar assistência psicológica aos trabalhadores… há vida fora disso.

A antessala dos problemas que aparecem no documentário, ansiedade, depressão e suicídio, são os outros alertas físicos, por exemplo gastrite, enxaqueca, intestino irritável e labirintites. Como mudar esse moedor de gente?

Mais um passo por um ambiente de trabalho saudável

André Guerra, psicólogo assessor do departamento Sindicato dos Bancários de Porto Alegre deixou vários questionamentos. “Qual racionalidade explica algo tão irracional, cruel, indigno, desumano? Qual o custo desse adoecimento para os próprios bancos e para sociedade? Qual é a função dos bancos na sociedade brasileira? Hoje eles têm uma função antissocial, portanto desumana. Adoecemos quando não somos tratados como pessoas e somos pressionados a não tratar os outros como pessoas.”

André apontou três desafios para o movimento sindical: Configurar um diagnóstico correto e comum sobre a saúde dos bancários no RS; Rever o conceito de saúde, que não pode ser individualista, pois é coletiva e conectada com a vida e buscar alternativas para conscientizar sobre a questão.

Jocéia lembrou sobre a campanha Menos Metas, Mais Saúde realizada pela Contraf-CUT em âmbito nacional. E acrescentou que o evento foi mais um passo no sentido de buscar um ambiente de trabalho saudável: “Se alguém hoje enxergou que o doente é o banco e não você, o encontro valeu.”

Marcio Colombo, coordenador da Secretaria de Comunicação do sindicato, destacou a atividade como um começo de conscientização e alertou que os bancos precisam se preocupar em escolher os melhores gestores de pessoas em vez de apenas os melhores vendedores. Pedro Incerti explicou a ação do sindicato quando recebe um relato ou denúncia sobre ameaça à saúde. Nelso Bebber, da secretaria de Organização e Política Sindical resgatou o esforço dos sindicatos em pautar a questão da saúde na mesa de negociações nas campanhas salariais. “Os bancos fogem desse debate”, denunciou.

O documentário Além do Limite: Quando a meta é sobreviver está disponível no YouTube. Acesse AQUI.

Alerta: O filme contém depoimentos sobre ansiedade, depressão e suicídio.

 

Bancários que precisam de ajuda em relação à saúde mental podem acionar o Sindicato dos Bancários de Caxias do Sul e Região pelo telefone (54) 3223.2166 ou whats 54 9972-0922. Aproveitamos para divulgar o telefone do Centro de Valorização da Vida – CVV, é o 188.

 

 

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